Religião da Grécia antiga
Hermes
Ἑρμῆς · Hermês
Mensageiro dos deuses, guia das almas e senhor das passagens
Divindade do trânsito entre mundos: leva mensagens, cruza fronteiras, conduz os mortos e patrocina o comércio e o roubo.
- Mensagem e mediação
- Viagem e estradas
- Comércio e troca
- Astúcia e engano
- Fronteiras e limites
- Morte e mundo dos mortos
Domínios e funções
Hermes é o deus do que está entre: entre cidades, entre o Olimpo e a terra, entre a vida e a morte, entre o que é meu e o que é teu. Daí patrocinar simultaneamente o comércio honesto e o furto.
A presença religiosa mais cotidiana eram os hermas, pilares com cabeça esculpida e falo, colocados em entradas, cruzamentos e limites de propriedade. Sua mutilação em massa em Atenas, em 415 a.C., provocou uma crise política grave narrada por Tucídides.
Epítetos e nomes cultuais
- Argeiphóntēs — matador de Argos
- Psychopompós — condutor das almas
- Dólios — o ardiloso
- Kriophóros — portador do carneiro
- Chthónios — subterrâneo
- Enagṓnios — dos concursos atléticos
Genealogia e relações familiares
- Ascendência
- Zeus e Maia, uma das Plêiades
- Irmãos
- Apolo, Ártemis, Atena, Ares e Dionísio, entre outros filhos de Zeus
- Vínculos conjugais
- Nenhuma união estável
- Descendência
- Pã em algumas versões, Hermafrodito, Autólico e Eudoro
- Posição na sucessão divina
- Quarta geração divina; o mais jovem dos doze olímpicos
A relação com Apolo começa por um conflito e termina em aliança: o recém-nascido rouba o gado do irmão mais velho e, ao entregar-lhe a lira que acabara de inventar, obtém em troca o bastão e um lugar entre os olímpicos.
Autólico, seu filho, é avô materno de Odisseu, o que a épica usa para explicar a astúcia do herói como herança de família.
Símbolos e objetos associados
Símbolos
Objetos nomeados
- Caduceu (kērýkeion) — bastão de arauto com duas serpentes entrelaçadas; garante trânsito seguro e anuncia imunidade diplomática
- Sandálias aladas — permitem deslocamento imediato entre o Olimpo, a terra e o mar
- Pétaso — chapéu de aba larga usado por viajantes
Animais associados
Principais narrativas
-
O primeiro dia de vida
Recém-nascido, Hermes inventa a lira com um casco de tartaruga, rouba o gado de Apolo fazendo os animais andarem de costas e nega tudo diante de Zeus.
Hino Homérico 4, a Hermes, v. 1-580
-
A escolta de Príamo
Hermes guia o velho rei troiano em segurança pelo acampamento inimigo até a tenda de Aquiles, para que possa resgatar o corpo do filho.
Homero, Ilíada, canto XXIV, v. 333-469
-
As almas dos pretendentes
Com o bastão dourado, Hermes conduz as almas dos mortos para fora do palácio de Odisseu, e elas o seguem guinchando como morcegos.
Homero, Odisseia, canto XXIV, v. 1-14
Culto e evidência histórica
- Área de culto documentada
- Arcádia, sobretudo o monte Cilene, além de Atenas, Pilos e estradas de todo o mundo grego
- Janela de registro
- atestação micênica em Pilos e textos do século VIII a.C. em diante
O Hino Homérico 4 é a fonte narrativa mais completa e apresenta um deus recém-nascido já capaz de inventar a lira e negociar com Apolo. O culto arcádio, no monte Cilene, era considerado o mais antigo. Hermes aparece nas tabuletas micênicas de Pilos, e os hermas de pedra permaneceram elementos visíveis da paisagem urbana grega por séculos.
Fontes históricas
- Hino Homérico 4, a Hermes, texto integral
- Odisseia, Homero, cantos V, v. 43-54, e XXIV, v. 1-14
- História da Guerra do Peloponeso, Tucídides, 6.27-28
- Descrição da Grécia, Pausânias, 8.17
Cautelas de leitura
O caduceu de Hermes é frequentemente confundido com o bastão de Asclépio, que tem uma só serpente e nenhuma asa, e é o símbolo próprio da medicina. Além disso, o Hermes Trismegisto dos textos herméticos greco-egípcios é uma construção do período romano, distinta do deus grego arcaico, embora derive dele por associação com o egípcio Tote.