Religião da Grécia antiga

Apolo

Ἀπόλλων · Apóllōn

Deus do oráculo, da música, da purificação e da doença enviada

Divindade de amplo alcance, responsável pela profecia em Delfos, pela ordem musical e pela ambiguidade entre causar e curar a peste.

  • Profecia e adivinhação
  • Poesia e inspiração
  • Cura e saúde
  • Luz e claridade
  • Ordem cósmica e lei

Domínios e funções

  • Profecia e consulta oracular
  • Música, lira e canto coral
  • Purificação de homicídio e culpa ritual
  • Doença epidêmica e cura
  • Arco e tiro à distância

Apolo é o deus grego da distância: atinge de longe com o arco, fala de longe pelo oráculo e estabelece a medida certa das coisas. As máximas gravadas em Delfos, "conhece-te a ti mesmo" e "nada em excesso", resumem essa função reguladora.

Sua ambivalência é estrutural: o mesmo deus que envia a peste ao acampamento aqueu no primeiro canto da Ilíada é invocado como Paián para afastá-la. Causar e curar não são contradições no sistema grego, e sim faces do mesmo poder.

Epítetos e nomes cultuais

  • Phoîbos — o luminoso, o puro
  • Loxías — o oblíquo, por causa da ambiguidade dos oráculos
  • Mousagétēs — condutor das Musas
  • Sminthéus — dos ratos, ligado à peste
  • Paián — o que cura
  • Lykeios — de sentido discutido, talvez ligado ao lobo

Genealogia e relações familiares

Ascendência
Zeus e Leto
Irmãos
Ártemis, sua gêmea, e os demais filhos de Zeus
Vínculos conjugais
Nenhuma união estável; ligações com Coronis, Cirene e Dafne, entre outras
Descendência
Asclépio, Aristeu, Íon e, em algumas versões, Orfeu
Posição na sucessão divina
Quarta geração divina; um dos doze olímpicos

O vínculo com Ártemis é o mais firme: gêmeos nascidos em Delos, agem muitas vezes em conjunto, como na punição dos filhos de Níobe.

A descendência de Asclépio dá origem à medicina grega: os Asclepíades reivindicavam origem no deus, e o juramento hipocrático abre invocando Apolo médico.

Símbolos e objetos associados

Símbolos

  • Lira
  • Arco e flechas
  • Louro
  • Trípode
  • Cisne
  • Corvo
  • Palmeira

Objetos nomeados

  • Lira — recebida de Hermes em troca do gado roubado, conforme o Hino Homérico 4
  • Trípode délfico — assento oracular sobre o qual a Pítia pronunciava as respostas
  • Arco de prata — instrumento tanto da peste quanto da punição à distância

Animais associados

  • Corvo
  • Cisne
  • Golfinho
  • Lobo

Principais narrativas

  1. Nascimento em Delos

    Perseguida por Hera, Leto encontra abrigo apenas na ilha flutuante de Delos, que em troca recebe a promessa de um santuário célebre.

    Hino Homérico 3, a Apolo, v. 25-126

  2. A morte de Píton e a fundação do oráculo

    Apolo mata a serpente que guardava a fonte de Delfos e toma posse do lugar oracular, submetendo-se em seguida à purificação pelo derramamento de sangue.

    Hino Homérico 3, a Apolo, v. 300-374

  3. A peste no acampamento aqueu

    Ofendido pelo tratamento dado ao seu sacerdote Crises, Apolo dispara flechas de peste sobre os gregos por nove dias. O episódio abre a Ilíada.

    Homero, Ilíada, canto I, v. 43-52

  4. O serviço na casa de Admeto

    Punido por matar os Ciclopes, Apolo serve um ano como pastor de um rei mortal, episódio que inverte a hierarquia habitual entre deus e homem.

    Eurípides, Alceste, v. 1-27, e Apolodoro, 3.10.4

Culto e evidência histórica

Área de culto documentada
Delfos, Delos, Dídima, Claros, Dídima e todo o mundo grego
Janela de registro
textos do século VIII a.C. em diante; inscrições oraculares até o século IV d.C.

O santuário de Delfos foi o principal centro oracular do mundo grego, consultado por cidades e indivíduos, e sede dos Jogos Píticos. Delos, ilha considerada seu local de nascimento, abrigava o santuário que serviu de tesouro à liga marítima ateniense no século V a.C. Pausânias dedica o livro X inteiro à descrição de Delfos.

Fontes históricas

  • Hino Homérico 3, a Apolo, texto integral Fonte central para nascimento, chegada a Delfos e fundação do oráculo.
  • Ilíada, Homero, canto I, v. 43-52 Face pestilenta do deus arqueiro.
  • Eumênides, Ésquilo, v. 1-93 Apolo como purificador do sangue derramado.
  • Descrição da Grécia, Pausânias, livro X Descrição detalhada do santuário de Delfos.

Cautelas de leitura

A identificação de Apolo com o Sol é tardia: na poesia arcaica o Sol é Hélios, divindade distinta. A fusão ocorre sobretudo a partir do período helenístico e se consolida em contexto romano. Tratar Apolo como "deus do Sol" na Grécia arcaica é, portanto, um erro de cronologia.